quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Ás vezes você me pergunta porque que sou tão calado
não falo de amor quase nada
nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora
me come me gospe me deixa
mas hoje você ver...
eu vou vou lhe mostrar

Eu sou a luz das estrelas
eu sou a cor do luar
eu sou as coisas da vida
eu sou o medo de amar...

...

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Não me analise

Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.

Mário Quintana

sábado, 20 de outubro de 2007

Quero
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

(Clarice Lispector)

domingo, 14 de outubro de 2007

"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens." Fernando Pessoa, in "O Eu Profundo"

"Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava."
Mário Quintana

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

A gente não faz amigos, reconhece-os

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências … A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os
adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam - ou talvez nunca vão saber - que são meus amigos!
Vinicius de Moraes
Tem dias que a gente se sente
Um pouco talvez menos gente
Um dia daqueles sem graça
De chuva cair na vidraça
Um dia qualquer sem pensar
Sentindo o futuro no ar
O ar carregado, sutil
Um dia de maio ou abril
Sem qualquer amigo do lado
Sozinho em silêncio calado
Com uma pergunta na alma
Por que nesta tarde tão calma?
O tempo parece parado?

A felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim…
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Prá fazer a fantasia
De rei, ou de pirata ou jardineira
Prá tudo se acabar na quarta feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim…
A felicidade é como a gota de orvalho
Numa pétala de flor
brilha tranqüila
Depois de leve oscila…
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade está sonhando
Nos olhinhos do meu namorado
É como essa noite passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo por favor…
Prá que ele acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Vinicius de Moraes e Tom Jobim

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Não importa o tamanho, os anos de vida, o caminho percorrido, as mãos que me seguram... Eu não cresci. Converso com paredes, mesas, cadeiras, invento uma vida fácil de ser entendida e vivida. Elas não mentem, não omitem e não opinam. Não vivem. Só se fazem de testemunhas quando assumo que não posso e corro para o colo mais próximo.
Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago... - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia. Guimarães Rosa, in Grande Sertão

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

"Com um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à natureza humana" Augusto dos Anjos
"(...) -O que é que se consegue quando se fica feliz? sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana. - Repita a pergunta...? Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros. - Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi. - Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?- repetiu a menina com obstinação. A mulher encarava-a surpresa. - Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras... - Ser feliz é pra se conseguir o quê? (...)" Clarice Lispector