domingo, 23 de dezembro de 2007

Sonhos...

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre
chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre
costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de
sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto
convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria
ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto
esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo
não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e
começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda
despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se
iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

(Valsinha - chico buarque)

Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

ferreira gullar, in um instante

sábado, 15 de dezembro de 2007

Dentro de um livro...

Entre por essa porta agora
e diga que me adora
você tem meia hora
pra mudar a minha vida...
vem vambora
que o que você demora
é o que o tempo leva...
Ainda tem o seu perfume pela casa
ainda tem você na sala
Por que me coração despara?
Quando tem o seu cheiro... dentro de um livro...

Porque eu tenho uma alma que não se contenta,
Que chora lágrimas de dor e, às vezes, de amor.
É que eu quero passar em ato,
Tudo que é belo e esqueço.

Dizem que eu sou teimosa,
Mas a vida me fez assim.
Teimosia marcada,
Como se marca com brasa.

Antes eu só te via,
Hoje eu sempre te vejo,
Seu eu pudesse eu seria,
Muito mais fácil que sou.

Não me esqueço jamais,
Aquele dia.
Você quase ia,
E te puxei pela mão.

Quis agarrar minha certeza,
É tão difícil, sabia?
É tão difícil.
Me conte sobre sua vida.

Sobre seus dias chatos,
Seus dilemas e problemas,
Quando sua vida pesa,
E seus olhos perdem o brilho.


Um dia te entreguei uma folha,
Você me devolveu e foi assim que aprendi,
A não deixar com os outros,
O branco que só eu posso escrever.

Mariana Clark

domingo, 2 de dezembro de 2007

CÂNTICO IV

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Cecília Meireles
Se todos os sonhos dependessem das nossas vontades, dos nossos anseios, mas sempre é preciso mais do que um coração. O homem não se faz por si próprio e nem por um único sentimento, tudo nos influencia, tudo nos acorrenta. Não somos livres e nunca seremos, sempre haverá alguma coisa para nos impedir. Nosso maior inimigo somos nós mesmos. Nós que vivemos em busca da tão sonhada felicidade, esta que ao ser encontrada é abandonada por acharmos que não somos capazes de vivê-la.

A via láctea

Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso

Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima

Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza das coisas com humor
Mas não me diga isso!
É só hoje e isso passa...
Só me deixe aqui quieto
Isso passa.
Amanhã é outro dia
Não é?

Eu nem sei por quê me sinto assim
Vem de repente um anjo triste perto de mim
E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado por pensar em mim.

Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser quem eu sou.

Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado por pensar em mim...
Qualquer mulher é mais mulher do que eu. Eu ainda sou uma menina. Menina que, olhando pelo buraco da fechadura, deu de cara com um espelho e se viu, menina, olhando pelo buraco. Menina que se percebe menina. Mulher ainda não.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Terremoto!

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
(Quintana)

Indivisíveis


O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.Falávamos de coisas bobas,Isto é, que a gente achava bobas Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.Crianças...Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos A não ser o azul imenso dos olhos dela,Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,Nem no cachorro e no gato da casa,Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromissoE a mesma animal - ou celestial - inocência,Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:Não, não importava as coisas bobas que diséssemos.Éramos um desejo de estar perto, tão perto Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida... (Mario Quintana)

domingo, 18 de novembro de 2007

Continuei andando na fobia de quem tem certeza de que vai sumir num dobrar de esquina qualquer. Mas a maioria dos dias acaba antes mesmo de eu encontrar a esquina em que quero me deixar.

Strange...

People are strange, when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked, when you're unwanted
Streets are uneven, when you're down

When you're strange- faces come out of the rain (rain,
rain)
When you're strange- no one remembers your name
When you're strange, when you're strange, when you're
str-ange

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Há duas noites que mal durmo. Ando angustiada. Preocupam-me mais as decisões daqueles que amo do que as minhas. Não sei se é bom ou mau, sei que sofro com isso. Sinto-me incapaz de transmitir força, de falar de coração aberto, de confessar (olhos nos olhos) o medo da distância, da partida, da solidão, da perda, da dúvida, sem me achar estupidamente egoísta.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

(...) Eu perdi o meu medo, meu medo, meu medo da chuva. Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar. Aprendi o segredo, o segredo, o segredo da vida, vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar. E não posso entender tanta gente aceitando a mentira de que os sonhos desfazem aquilo que o padre falou. Porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo. Hoje eu sei que ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez. Uma vez.
(Raul Seixas - Medo da Chuva)

terça-feira, 6 de novembro de 2007


Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou, se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor, lhe tenho amor, lhe tenho horror, lhe faço amor, eu sou um ator...

A angústia

Eu poderia. Poderia ser igual. Até poderia ser mil vezes pior.

domingo, 4 de novembro de 2007

Lí por aí:
"As pessoas não morrem, ficam encantadas". Guimarães RosaAmor eterno. Saudade imensa.

Informe meteorológico


São os passarinhos bicando as nuvens até derramarem a chuva por cima de nós.


Instruções para se apaixonar

Encha o peito com mais de trezentos suspiros, quando estiver bem levinho,solte as amarras e flutue.

sábado, 3 de novembro de 2007

Último romance - Los hermanos

Eu encontrei-a quando não quis
mais procurar o meu amor
e o quanto levou foi pra eu merecer
antes um mês e eu já não sei
e até quem me vê lendo jornal
na fila do pão sabe que eu te encontrei
e ninguem dirá
que é tarde demais
que é tão diferente assim
do nosso amor
a gente é que sabe pequena
ahh vaii
me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
afim de te acompanhar
e se o caso for de ir a praia
eu levo essa casa numa sacola..
eu encontrei-a e quis duvidar
tanto clichê
deve não ser
você me falou
pra eu não me preocupar
ter fé e ver coragem no amor
e só de te ver
eu penso em trocar
a minha tv num jeito de te levar
a qualquer lugar
que voce queira
e ir onde o vento for
que pra nos dois
sair de casa ja é
se aventurar
ahh vaii
me diz o que é o sossego que eu te mostro alguem
afim de te acompanhar
e se o tempo for te levar eu sigo essa hora
eu pego carona
pra te acompanhar

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Ás vezes você me pergunta porque que sou tão calado
não falo de amor quase nada
nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora
me come me gospe me deixa
mas hoje você ver...
eu vou vou lhe mostrar

Eu sou a luz das estrelas
eu sou a cor do luar
eu sou as coisas da vida
eu sou o medo de amar...

...

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Não me analise

Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.

Mário Quintana

sábado, 20 de outubro de 2007

Quero
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

(Clarice Lispector)

domingo, 14 de outubro de 2007

"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens." Fernando Pessoa, in "O Eu Profundo"

"Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava."
Mário Quintana

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

A gente não faz amigos, reconhece-os

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências … A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os
adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam - ou talvez nunca vão saber - que são meus amigos!
Vinicius de Moraes
Tem dias que a gente se sente
Um pouco talvez menos gente
Um dia daqueles sem graça
De chuva cair na vidraça
Um dia qualquer sem pensar
Sentindo o futuro no ar
O ar carregado, sutil
Um dia de maio ou abril
Sem qualquer amigo do lado
Sozinho em silêncio calado
Com uma pergunta na alma
Por que nesta tarde tão calma?
O tempo parece parado?

A felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim…
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Prá fazer a fantasia
De rei, ou de pirata ou jardineira
Prá tudo se acabar na quarta feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim…
A felicidade é como a gota de orvalho
Numa pétala de flor
brilha tranqüila
Depois de leve oscila…
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade está sonhando
Nos olhinhos do meu namorado
É como essa noite passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo por favor…
Prá que ele acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Vinicius de Moraes e Tom Jobim

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Não importa o tamanho, os anos de vida, o caminho percorrido, as mãos que me seguram... Eu não cresci. Converso com paredes, mesas, cadeiras, invento uma vida fácil de ser entendida e vivida. Elas não mentem, não omitem e não opinam. Não vivem. Só se fazem de testemunhas quando assumo que não posso e corro para o colo mais próximo.
Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago... - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia. Guimarães Rosa, in Grande Sertão

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

"Com um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à natureza humana" Augusto dos Anjos
"(...) -O que é que se consegue quando se fica feliz? sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana. - Repita a pergunta...? Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros. - Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi. - Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?- repetiu a menina com obstinação. A mulher encarava-a surpresa. - Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras... - Ser feliz é pra se conseguir o quê? (...)" Clarice Lispector

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

"Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos. Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos" (Martin Luther King)

terça-feira, 18 de setembro de 2007

"Tenho tanto sentimento Que é freqüente persuadir-me De que sou sentimental. Mas reconheço ao medir-me Que tudo isso é pensamento Que não senti afinal (...)" Fernando Pessoa
"As palavras têm corpo e alma mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito e ponto. As palavras são sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas. A palavra juro não mente. A palavra mando não rouba. A palavra cor não destoa. A palavra sou não vira casaca. A palavra liberdade não se prende. A palavra amor não se acaba. A palavra idéia não muda. Palavras nunca mudam de idéia."

sexta-feira, 14 de setembro de 2007


Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana
"Quem trai seu amor por vaidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor." Vinícius de Morais

As pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. Há níveis-não-formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem e sobretudo emoções. Caio Fernando Abreu

terça-feira, 11 de setembro de 2007

(...) Quantas vezes, sob o peso de um tédio que parece ser loucura, ou de uma angústia que parece passar além dela, paro, hesitante, antes que me revolte, hesito, parando, antes que me divinize. Dor de não saber o que é o mistério do mundo, dor de nos não amarem, dor de serem injustos conosco, dor de pesar a vida sobre nós, sufocando e prendendo, dor de dentes, dor de sapatos apertados – quem pode dizer qual é a maior em si mesmo, quanto mais nos outros, ou na generalidade dos que existem? (...) Escrevo isto sob a opressão de um tédio que parece não caber em mim, ou precisar de mais que da minha alma para ter onde estar; de uma opressão de todos e de tudo que me estrangula e desvaira; de um sentimento físico da incompreensão alheia que me perturba e esmaga. Mas ergo a cabeça para o céu azul alheio, exponho a face ao vento inconscientemente fresco, baixo as pálpebras depois de ter visto, esqueço a face depois de ter sentido. Não fico melhor, mas fico diferente. Ver-me liberta-me de mim. Quase sorrio, não porque me compreenda, mas porque, tendo-me tornado outro, me deixei de poder compreender. No alto do céu, como um nada visível, uma nuvem pequeníssima é um esquecimento branco do universo inteiro. Fernando Pessoa

terça-feira, 28 de agosto de 2007

"Minha vida era feita de peças soltas como a de um quebra-cabeças sem molde final. Ao acaso, eu dispunha peças." Caio Fernando Abreu